quinta-feira, 21 de maio de 2009

Casa de negócios (parte II)



Quando terminou o Campeonato Carioca de 1956, o Bangu, por razões que desconheço, decidiu vender seu maior astro, Zizinho. Amigo de Zizinho desde tempos remotos, Nílton Santos – que completou dia 16 deste mês 84 anos (foto) – procurou o dirigente Adhemar Bebiano e lhe fez a proposta:

- Doutor Bebiano, por que o senhor não compra logo o passe de Zizinho? Já imaginou o ataque do Botafogo com Garrincha, Didi, Paulo Valentim, Zizinho e Quarentinha (Zagallo ainda era do Flamengo).
Adhemar Bebiano olhou Nílton Santos de alto a baixo e respondeu:

- Olha, Nílton, Zizinho jamais vestirá a camisa do Botafogo...
Nílton Santos quis saber a razão e Bebiano lhe deu uma resposta digna de figurar na história – longa e gloriosa história – do Botafogo:

- Num jogo aqui em General Severiano, em 1948, ele tentou chutar o Biriba (diga-se que o Botafogo venceu o Flamengo por 5 a 3 num jogo emocionante, pois chegou a estar perdendo de 3 a 1).

Quer queiram ou não, principalmente os torcedores mais jovens, essa é a imagem típica do Botafogo, uma bela casa de negócios. Não estou preocupado se Zizinho foi vendido ao São Paulo (pelo qual foi campeão de 1957) ou outros desfalques em clubes do Rio. O Flamengo, por exemplo, expulsou Jair Rosa Pinto, vendeu Zizinho ao Bangu e Pirillo ao Botafogo. O Vasco negociou Vavá (Atlético de Madri) e Orlando (Boca Juniors), além do craque Válter Marciano para os espanhóis. O Fluminense comprou e vendeu Ademir, perdeu Didi e vendeu Valdo para a Espanha. Tudo isso faz parte do jogo, mas como disse aquele ‘político’ de Brasília, estou me lixando para o que nossos adversários fazem com seus craques.

Meu negócio é o Botafogo, clube de minha irrefreável paixão. Não posso me queixar da ida do temperamental Heleno para o Boca Juniors pois era um garoto de calças curtas. Mas depois, ah, depois, sofri com Gato, Casnock, Arlindo Baiaco, Orlando Pingo de Ouro, Rodrigues Tatu, além de Joel, ponta-esquerda do Fluminense. O Botafogo vendeu Dino, Vinícius, Amarildo, Gérson, Luisinho Quintanilha, Paulo Catimba Valentim e só não negociou Garrincha com o Juventus, da Itália, porque o médico Nélson Senise (pai do músico Mauro Senise e avô de meu casal de filhos) vetou. Após um sério diagnóstico, na Clínica Pio XII, disse que Mané tinha artroses irreversíveis. O Juventus já acertara o preço: Cr$ 2 milhões.

E quais foram as maiores contratações? Didi (feita por João Sem Medo), Gérson e Zagallo. Mas Didi cismou e foi embora para o Real Madri e Gérson brigou com um dirigente, ao final de 1969, e foi ser campeão no São Paulo. Ficou Zagallo, que sempre direi que deu forma ao time, fixando um 4-3-3 revolucionário para a época. Mas e Jairzinho e Paulo César Lima? Para onde foram? Para o Marselha, da França. E Roberto Guerreiro Miranda? Simplesmente para o Flamengo. E Túlio Maravilha? Para o Timão, no dia da posse de José Luiz Rolim. Assim, queiram ou não meus jovens leitores, teremos que ficar com nossos 19 títulos, atrás de todos os outros grandes do Rio. E boto banca porque sofri os diabos. Como sofri...

Até a sede de General Severiano nós vendemos...Fomos parar em Marechal, Caio Martins e na Ilha do Governador.
Só faço questão fechada e absoluta de isentar o atual presidente, Maurício Assumpção, que nada teve a ver com a saída do ex-futuro ídolo Maicosuel. Por isso, não me cobrem otimismo.
E para terminar por hoje, só por hoje, para onde foram Mauro Galvão, Gottardo e Paulo Criciúma? Reclamem, chorem, mas essa é a mais pura das verdades: é uma casa de negócios com certeza, é com certeza uma casa de negócios (tomando emprestado a canção ‘Casa Portuguesa’.)

2 comentários:

Eduardo disse...

Querido chefe Robertão, você está muito amargo. Concordo com você que as vendas de Vinícius e Dino (que, bem garoto, começava a admirar como goleadores)nos levaram a um período negro com Gatos e Casnocks, felizmente encerrado com a chegada do maior de todos os tempos, Mané Garrincha. Mas vender jogadores faz parte do futebol. O erro é vender mais do que comprar substitutos à altura, e isso, tirando o São Paulo nos dias de hoje, todos fazem.
Mas acho que, diante da geléia geral em que se transformou o futebool brasileiro, vamos ter um bom desempenho esse ano.
No caso do Maicosuel, o erro foi fazer acordo com a Traffic, empresa comerciante de jogadores liderada pelo ex-jornalista J. Hawilla. Com essa gente, nada adianta, apenas o som do dinheiro.
E lanço a pergunta: quem virá para o lugar de Maicosuel?
E só para alegrar o ambiente, eles, do time da Beira da Lagoa, se superam sempre. Trazer de volta Petcovic em um trambique para não pagar milhões de multa, é de morrer de rir.

Edimilson disse...

Caro Roberto Porto,

Primeiro é sempre um prazer ler suas colunas sempre recheadas com o suprassumo da história alvinegra. Quem não teve o prazer de acompanhar os áureos tempos, como eu, viajo quando leio as histórias do Fogão dos anos 60. Mas a nossa realidade é igual a da maioria dos clubes brasileiros, salvo raríssimas exceções, sobrevivemos de teimosos e apaixonados que somos.

Nosso presidente encaminha-se para entrar para história recente do clube, com uma administração moderna, transparente e de pés no chão. A torcida sofre com a falta de talentos, mas entende e apóia. Pela primeira vez desde a era pontos corridos poderemos iniciar e terminar o brasileirão honrando compromissos. Sem caixa, perdemos Maicosuel, mas quem era ele antes do Fogão? Um nômade, como outros que contratamos e que ainda contrataremos, e que também poderão transformar-se em novos ‘Maicosuel’ da vida. Só nos resta agora agir com mais rapidez e comprar os direitos antes de a próxima promessa ‘estourar’, como Maicosuel. Nos moldes atuais, só assim seguraremos um ‘ex-futuro ídolo’, como você frisou, por uma temporada inteira.

Ah, acesse meu blog: http://saudacoesalvinegras.blogspot.com/

Abraços e Saudações Alvinegras