quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A última vez que vi Garrincha

Fazia um calor dos diabos no Rio naquela noite de novembro de 1981, quando me sentei na confortável poltrona do Electra II da Varig que me levaria a São Paulo. Eu acabara de deixar O Globo por causa de uma discussão despropositada – envolvendo a morte acidental de Cláudio Coutinho (1939-1981) – com o então todo-poderoso diretor de redação Evandro Carlos de Andrade (1932-2001) e tinha um encontro profissional marcado na capital paulista com o velho companheiro Mauro Ivã Pereira de Mello. O comandante, mesmo com os motores da aeronave à meia bomba, ligara o ar-condicionado com força total para refrescar os passageiros.

Instantes depois, num mal ajambrado paletó, acompanhado por dois sujeitos que eu desconhecia, Garrincha passou por mim em direção à salinha que o velho avião tinha nos fundos. Quando Mané passou por mim, dei-lhe um tapinha amistoso no braço e recebi o cumprimento que ele dispensava a todos os fãs:

– Fala, gente boa...

Instantes depois, talvez embalado pelo friozinho agradável, acabei pegando no sono. Creio que fiquei desligado por uns bons 30 minutos. Quando despertei, me senti perdido. O Electra II seguia parado e perguntei ao passageiro a meu lado se já havíamos chegado a Congonhas. A resposta do cidadão me assustou:

– Olha, amigo, nem mesmo decolamos...

Perguntei a razão e ele me explicou o por quê:

– O comandante alertou pelo alto-falante que a bordo há um elemento alcoolizado e assim ele não levantará vôo. Por isso, chamou a polícia para retirá-lo.

Entrei em pânico. Garrincha, certamente, estaria aprontando lá atrás com seus estranhíssimos amigos. E pior: eu teria que presenciar a inédita expulsão do avião de meu ídolo alvinegro, àquela altura já sofrendo com o alcoolismo. Foi então que dois seguranças do aeroporto entraram no Electra II, passaram por mim e retiraram à força um senhor de cabelos brancos que mal se sustentava em pé. Foi uma áfrica retirar o bêbado. Ele se agarrou às poltronas, teve o paletó rasgado e ainda perdeu um sapato antes de ser colocado para fora aos gritos.

Um espetáculo deprimente.

Do meu lugar, aliviado, fiquei feliz em saber que Garrincha embarcara sóbrio. Quando por fim desembarcamos em Congonhas, em meio a tantos passageiros, já não mais vi Garrincha. Mas sua imagem alegre ficou em minha lembrança. Garrincha, é certo, fazia poucas e boas mesmo fora de campo, mas mesmo em sua simplicidade não cometeria o desatino de embarcar bêbado.

Saudades, gente boa...

3 comentários:

Camila Augusta disse...

Saudades também do que nãi vi e nem vivi. Mas só as histórias e lembranças que os amigos têm, já me deixam com saudades.

Saudações!

Zobaran disse...

Seus últimos textos têm sido sensacionais, mestre! Não que os anteriores não tenham sido... por favor... Mas é que esse tipo de relato como a do Paulo Valentim, por exemplo, é simplesmente histórico.

Muito obrigado!

Daniel disse...

Vc é um ícone para o Botafogo!
Obrigado por existir!
Comprei o seu livro e achei ótimo
Comprei uma embalagem para presente que vem 3 livros, Botafogo, O Glorioso, Meu time do coração e um livro infantil.
Muito bom o seu livro!
Abraço!