
Vejamos dois exemplos típicos – que cheguei a debater com ele na redação. O Botafogo que esmagou o Fluminense por 6 a 2 na final do Campeonato Carioca de 1957, estava teoricamente escalado com Adalberto, Beto, Thomé, Servílio e Nílton Santos; Américo Pampolini e Didi; Garrincha, Édison Praça Mauá, Paulo Catimba Valentim e Quarentinha. Por sinal, Paulo Valentim jogou com a camisa oito porque afirmou que a nove não lhe dava sorte – talvez por isso marcou cinco gols.
Na prática, porém – eu lá estava com meu amigo Roberto Sant’Anna – o time jogou com Adalberto, Beto, Thomé, Servílio e Nílton Santos; Pampolini, Didi, Édison e Quarentinha; Garrincha e Paulo Valentim, ou seja, num 4-4-2 fechadíssimo. E mais: Quarentinha, artilheiro implacável, recebeu a missão de marcar Telê Santana (1931-2006) em cima, não permitindo que o número sete tricolor armasse um único e escasso ataque para Valdo, Escurinho ou Jair Francisco. Estratégia inteligente? Claro. O Fluminense era mais afinado e vencera o Botafogo no turno por 1 a 0, com Didi, de maneira mais do que displicente, chutando um pênalti nas mãos de Carlos Castilho.
Mas e na Seleção Brasileira, tantos anos depois?
João Saldanha escalou o time num 4-2-4. Na foto acima, em 1957, Thomé comanda uma abraço generalizado dos alvinegros na goleada histórica. Na foto abaixo, a cores, estão posados Carlos Alberto Torres, Félix, Djalma Dias, Joel, Wilson Piazza e Rildo; embaixo, agachados, Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Edu, ou seja, dois pontas abertos e apenas dois no meio-campo (Piazza e Gérson), às vezes auxiliados por Tostão, que não marcava ninguém. Em poucas e resumidas palavras, como diria Nélson Rodrigues (1912-1980), era um 4-3-3 mais para 4-2-4. Pode?
Em 1970, logo depois da Copa do Mundo, fui ao Chile com a Seleção Brasileira e fiquei temporariamente retido em Buenos Aires à espera de uma escala. Sabem com quem conversei por mais de uma hora? Com o presidente da então CBD João Havelange, também à espera de um avião para Santiago. E Havelange me disse que com aquele esquema de dois pontas abertos (Jair e Edu) e o meio-campo desprotegido o Brasil não iria a lugar nenhum. Daí a demissão de João Saldanha e a chegada de Mário Jorge Lobo Zagallo, com seu tradicional e eficiente (na época) 4-3-3.
O que fez Zagallo? Mudou o time. Montou uma equipe com Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Marco Antônio (depois Everaldo); Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Jair, Tostão e Pelé. E quando Gérson se machucou, valeu-se da primeira substituição permitida numa Copa do Mundo: colocou Paulo César Lima recuado e avançou um pouco Roberto Rivelino, ou seja, manteve o rígido 4-3-3 que aplicara no Botafogo, com Carlos Roberto, Gérson e Paulo César, mantendo à frente Rogério Ventilador, Jairzinho e Roberto Miranda.
Naquela tarde no Aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, conversando animadamente com João Havelange, me convenci de que o comunismo de João Saldanha nada tivera a ver com sua demissão. E que a chamada ditadura militar não dera qualquer palpite, a não ser o pedido de Emílio Garrastazu Médici (1905-1985) para que desse uma chance a Dadá Maravilha – que, cá entre nós, de Maravilha não tinha nada. A rigor, Dario só fez correr em campo, após a final, tentando carregar a Taça Jules Rimet, infelizmente derretida por bandidos que invadiram a então CBF.

6 comentários:
Mestre Porto,
Permitas discordar, um pouquinho, do Mestre!
Minha infância, juventude e início da fase madura foram vividas na ditadura.
Hoje, vivemos a ditadura financeira, e os empresários estão aí para provar. Dão os títulos que querem e a quem lhes interessar e der retorno.
Tenho certeza que os militares tiveram poder de fogo muito maior que a função tática.
Lembro-me que a comissão técnica era formada, em sua maioria, por militares com patentes de oficiais superiores.
Lembro-me da censura de imprensa e tempos mais tarde soubemos que o João Sem Medo Saldanha, nas viagens ao exterior falava sobre as torturas e a ditadura no Brasil.
Os militares queriam o título para distrair as atenções e temiam o nosso querido João Sem Medo Saldanha.
Fico a imaginar uma entrevista do João com a imprensa mundial aos seus pés!
Mestre, como gostaria que o nosso João estivesse conosco. Principalmente nesse momento de dor e tristeza para com o futuro do nosso amado Botafogo.
Abs e Sds, BOTAFOGUENSES!!!
Ae Roberto!
Vamos ajudar a mapear a torcida do Fogão!
Esse site acabou de ser criado e visa mapear a torcida pelo brasil e mundo a fora.
Já tem torcedor do fogão até em Israel
segue o link
http://wikimapps.com/a/torcidas
Saudações
Saudações Botafoguense ! O João-Sem-Medo está fazendofalta. Com certerza, o Glorioso não se tornaria vitrine de empresários e o time não seria esse amontoado de zonzeadores de bola, com uma ou duas exceções.
A Diretoria atual já teria sido implodida para alegria dos torcedores que estão cansados do amadorismo.Lamento dizer-lhe que temo que o Botafogo venha a se tornar o TERCEIRO TIME DOS CARIOCAS, como o AMérica é o SEGUNDO.
As perspectivas que tal venha acontecer está dentro de uma possibilidade razoável. As contratações vitrinescas para transferência para o exterior estão abertas e os empresários - escravocatas atuais - saúdam-se, com os miseráveis lucros da força de trabalho alheia e a cumplicidade de diigentes de papel, Dirigentes de Palha,biombos da invisibilidade mal-cheirosa. A esperança é a últimaz que morre, mas morre. João Saldanha! Que falta você faz para denunciar a atual escravidão e os seus senhores feudais escudados em Clubes de Futebol. O Botafogo é somente mais uma vítima dessa engenharia hipócria e consentida. Ainda com esperança, Ítalo.
Muito boa a sua história Roberto!
Acho que se Saldanha fosse para Copa de 70, não teria dificuldades em conquistar a mesma. O time com qualquer formação ou tática era forte demais.
Grande abraço.
SDS Botafoguense !
Ah! Se o João Saldanha fosse vivo, o Botafogo seria outro e não este espectro que hoje perambula na escuridão, como fantasma do que já foi um dia.O nosso Glorioso é uma excelente vitrine para empresários colocar suas mercadorias, numa modalide nova de exploração da força de trabalho. São escravocratas,não passando os dirigentes de meros capitães-do-mato.O Botafogo, infelizmente, é isso. Não passa de uma barcarola, anunciando mercadorias humanas.Mas, se o João Saldanha estivesse entre nós esses vendilôes de mantos sagrados, como a do Botafogo,seriam expulsos a chicotadas.O Botafogo tem que sair desse barco, pois a descida está mais do que anunciada pela incompetência e nós, torcedores do Botafogo,temos que levar esse barco para um porto seguro. Para tanto, temos que dar às mãos e ir para o cais de General Severiano e fazer que ouçam nossas vozes que não vêm da África, mas do amor pelo Botafogo.
faça uma campanha em seu blog e vamos, como o João-Sem-Medo,ocupar pacificamente mas com determinação a sede do nosso clube,que agoniza e precisa extipar a doença de que está acometido. Mephisto não é o nosso exemplo, ao vender sua alma ao diabo, mas Nilton Santos é um exemplo de como pulsa um coração botafoguense.Ítalo
Caro Roberto Porto,
Sou jornalista esportivo e cobri a Seleção Brasileira nas Eliminatórias da Copa de 70. Desde a época dos treinamentos no Rio, amistosos em Salvador, Aracaju, Recife, jogos na Colômbia, Venezuela e Paraguai.
Naquela época, frequentava muito a redação do JB, cujo editor de Esportes era o saudoso Oldemário Touguinhó.
Gotava de ouvir o Saldanha, o mais simpático e envolvente mentiroso que já conheci até hoje. Falava sobre qualquer assunto: de pragas nos gramados a desgaste dos pneus de aviões.
A queda dele não teve nada a ver com militares ou esquema tático.
Ele caiu porque surtou.
Surtou quando tirou Pelé do time, alegando que o Pelé tinha um sério problema de visão e não estava enxergando direito, lembra-se?
Nessa mesma época, teve um tremendo de um bate-boca na TV Globo com o Armando Nogueira, ao vivo.
Ele fez algumas acusações envolvendo o jornalismo da Globo e o Armando, que não estava no programa, entrou no ar, defendeu seus profissionais e quebrou o pau com o Saldanha.
Na semana seguinte, ele caiu. A impressão que se tinha na época é que ele não estava em seu juízo perfeito.
Lamento tirar o romantismo do perseguido político, ou até mesmo da boa conversa que Você teve com o Havelange.
Mas foi o que aconteceu.
Abraços,
Mário Marinho
São Paulo.
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