terça-feira, 22 de dezembro de 2009

As várias faces de João Saldanha

João Jobim Alves Saldanha (1917-1990) foi, inegavelmente, um sujeito inteligente. Recentemente, inclusive, virou estátua no Maracanã, com todo merecimento. Mas eu, que convivi com ele na redação do Jornal do Brasil, na Avenida Brasil, 500, nele descobri, somando fatos e conversas particulares, certa incongruência – se é que os leitores deste meu blog me entendem. E essa incongruência o levou a ser demitido da Seleção Brasileira que, nas mãos de Mário Jorge Lobo Zagallo, conquistou o tricampeonato mundial em 1970, no México.

Vejamos dois exemplos típicos – que cheguei a debater com ele na redação. O Botafogo que esmagou o Fluminense por 6 a 2 na final do Campeonato Carioca de 1957, estava teoricamente escalado com Adalberto, Beto, Thomé, Servílio e Nílton Santos; Américo Pampolini e Didi; Garrincha, Édison Praça Mauá, Paulo Catimba Valentim e Quarentinha. Por sinal, Paulo Valentim jogou com a camisa oito porque afirmou que a nove não lhe dava sorte – talvez por isso marcou cinco gols.

Na prática, porém – eu lá estava com meu amigo Roberto Sant’Anna – o time jogou com Adalberto, Beto, Thomé, Servílio e Nílton Santos; Pampolini, Didi, Édison e Quarentinha; Garrincha e Paulo Valentim, ou seja, num 4-4-2 fechadíssimo. E mais: Quarentinha, artilheiro implacável, recebeu a missão de marcar Telê Santana (1931-2006) em cima, não permitindo que o número sete tricolor armasse um único e escasso ataque para Valdo, Escurinho ou Jair Francisco. Estratégia inteligente? Claro. O Fluminense era mais afinado e vencera o Botafogo no turno por 1 a 0, com Didi, de maneira mais do que displicente, chutando um pênalti nas mãos de Carlos Castilho.

Mas e na Seleção Brasileira, tantos anos depois?

João Saldanha escalou o time num 4-2-4. Na foto acima, em 1957, Thomé comanda uma abraço generalizado dos alvinegros na goleada histórica. Na foto abaixo, a cores, estão posados Carlos Alberto Torres, Félix, Djalma Dias, Joel, Wilson Piazza e Rildo; embaixo, agachados, Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Edu, ou seja, dois pontas abertos e apenas dois no meio-campo (Piazza e Gérson), às vezes auxiliados por Tostão, que não marcava ninguém. Em poucas e resumidas palavras, como diria Nélson Rodrigues (1912-1980), era um 4-3-3 mais para 4-2-4. Pode?

Em 1970, logo depois da Copa do Mundo, fui ao Chile com a Seleção Brasileira e fiquei temporariamente retido em Buenos Aires à espera de uma escala. Sabem com quem conversei por mais de uma hora? Com o presidente da então CBD João Havelange, também à espera de um avião para Santiago. E Havelange me disse que com aquele esquema de dois pontas abertos (Jair e Edu) e o meio-campo desprotegido o Brasil não iria a lugar nenhum. Daí a demissão de João Saldanha e a chegada de Mário Jorge Lobo Zagallo, com seu tradicional e eficiente (na época) 4-3-3.

O que fez Zagallo? Mudou o time. Montou uma equipe com Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Marco Antônio (depois Everaldo); Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Jair, Tostão e Pelé. E quando Gérson se machucou, valeu-se da primeira substituição permitida numa Copa do Mundo: colocou Paulo César Lima recuado e avançou um pouco Roberto Rivelino, ou seja, manteve o rígido 4-3-3 que aplicara no Botafogo, com Carlos Roberto, Gérson e Paulo César, mantendo à frente Rogério Ventilador, Jairzinho e Roberto Miranda.

Naquela tarde no Aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, conversando animadamente com João Havelange, me convenci de que o comunismo de João Saldanha nada tivera a ver com sua demissão. E que a chamada ditadura militar não dera qualquer palpite, a não ser o pedido de Emílio Garrastazu Médici (1905-1985) para que desse uma chance a Dadá Maravilha – que, cá entre nós, de Maravilha não tinha nada. A rigor, Dario só fez correr em campo, após a final, tentando carregar a Taça Jules Rimet, infelizmente derretida por bandidos que invadiram a então CBF.


6 comentários:

Gil disse...

Mestre Porto,

Permitas discordar, um pouquinho, do Mestre!

Minha infância, juventude e início da fase madura foram vividas na ditadura.
Hoje, vivemos a ditadura financeira, e os empresários estão aí para provar. Dão os títulos que querem e a quem lhes interessar e der retorno.
Tenho certeza que os militares tiveram poder de fogo muito maior que a função tática.
Lembro-me que a comissão técnica era formada, em sua maioria, por militares com patentes de oficiais superiores.
Lembro-me da censura de imprensa e tempos mais tarde soubemos que o João Sem Medo Saldanha, nas viagens ao exterior falava sobre as torturas e a ditadura no Brasil.
Os militares queriam o título para distrair as atenções e temiam o nosso querido João Sem Medo Saldanha.
Fico a imaginar uma entrevista do João com a imprensa mundial aos seus pés!

Mestre, como gostaria que o nosso João estivesse conosco. Principalmente nesse momento de dor e tristeza para com o futuro do nosso amado Botafogo.

Abs e Sds, BOTAFOGUENSES!!!

Leonardo Ayres disse...

Ae Roberto!

Vamos ajudar a mapear a torcida do Fogão!
Esse site acabou de ser criado e visa mapear a torcida pelo brasil e mundo a fora.
Já tem torcedor do fogão até em Israel
segue o link
http://wikimapps.com/a/torcidas

ITALO disse...

Saudações












Saudações Botafoguense ! O João-Sem-Medo está fazendofalta. Com certerza, o Glorioso não se tornaria vitrine de empresários e o time não seria esse amontoado de zonzeadores de bola, com uma ou duas exceções.
A Diretoria atual já teria sido implodida para alegria dos torcedores que estão cansados do amadorismo.Lamento dizer-lhe que temo que o Botafogo venha a se tornar o TERCEIRO TIME DOS CARIOCAS, como o AMérica é o SEGUNDO.
As perspectivas que tal venha acontecer está dentro de uma possibilidade razoável. As contratações vitrinescas para transferência para o exterior estão abertas e os empresários - escravocatas atuais - saúdam-se, com os miseráveis lucros da força de trabalho alheia e a cumplicidade de diigentes de papel, Dirigentes de Palha,biombos da invisibilidade mal-cheirosa. A esperança é a últimaz que morre, mas morre. João Saldanha! Que falta você faz para denunciar a atual escravidão e os seus senhores feudais escudados em Clubes de Futebol. O Botafogo é somente mais uma vítima dessa engenharia hipócria e consentida. Ainda com esperança, Ítalo.

Leonardo Moraes disse...

Muito boa a sua história Roberto!
Acho que se Saldanha fosse para Copa de 70, não teria dificuldades em conquistar a mesma. O time com qualquer formação ou tática era forte demais.
Grande abraço.

ITALO disse...

SDS Botafoguense !

Ah! Se o João Saldanha fosse vivo, o Botafogo seria outro e não este espectro que hoje perambula na escuridão, como fantasma do que já foi um dia.O nosso Glorioso é uma excelente vitrine para empresários colocar suas mercadorias, numa modalide nova de exploração da força de trabalho. São escravocratas,não passando os dirigentes de meros capitães-do-mato.O Botafogo, infelizmente, é isso. Não passa de uma barcarola, anunciando mercadorias humanas.Mas, se o João Saldanha estivesse entre nós esses vendilôes de mantos sagrados, como a do Botafogo,seriam expulsos a chicotadas.O Botafogo tem que sair desse barco, pois a descida está mais do que anunciada pela incompetência e nós, torcedores do Botafogo,temos que levar esse barco para um porto seguro. Para tanto, temos que dar às mãos e ir para o cais de General Severiano e fazer que ouçam nossas vozes que não vêm da África, mas do amor pelo Botafogo.
faça uma campanha em seu blog e vamos, como o João-Sem-Medo,ocupar pacificamente mas com determinação a sede do nosso clube,que agoniza e precisa extipar a doença de que está acometido. Mephisto não é o nosso exemplo, ao vender sua alma ao diabo, mas Nilton Santos é um exemplo de como pulsa um coração botafoguense.Ítalo

MarioMarinho disse...

Caro Roberto Porto,
Sou jornalista esportivo e cobri a Seleção Brasileira nas Eliminatórias da Copa de 70. Desde a época dos treinamentos no Rio, amistosos em Salvador, Aracaju, Recife, jogos na Colômbia, Venezuela e Paraguai.
Naquela época, frequentava muito a redação do JB, cujo editor de Esportes era o saudoso Oldemário Touguinhó.
Gotava de ouvir o Saldanha, o mais simpático e envolvente mentiroso que já conheci até hoje. Falava sobre qualquer assunto: de pragas nos gramados a desgaste dos pneus de aviões.
A queda dele não teve nada a ver com militares ou esquema tático.
Ele caiu porque surtou.
Surtou quando tirou Pelé do time, alegando que o Pelé tinha um sério problema de visão e não estava enxergando direito, lembra-se?
Nessa mesma época, teve um tremendo de um bate-boca na TV Globo com o Armando Nogueira, ao vivo.
Ele fez algumas acusações envolvendo o jornalismo da Globo e o Armando, que não estava no programa, entrou no ar, defendeu seus profissionais e quebrou o pau com o Saldanha.
Na semana seguinte, ele caiu. A impressão que se tinha na época é que ele não estava em seu juízo perfeito.
Lamento tirar o romantismo do perseguido político, ou até mesmo da boa conversa que Você teve com o Havelange.
Mas foi o que aconteceu.
Abraços,
Mário Marinho
São Paulo.