segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Sandro detona o São Cristóvão



No final da década de 60, quando o Botafogo ainda tinha um estádio e um time de futebol – o ataque com Rogério, Gérson, Jair, Roberto e Paulo César explica o que quero dizer – Sandro Moreyra (1919-1987), que é visto neste blogspot comigo, no fusca de João Saldanha (1917-1990), na caricatura do Ique, me chamou para assistir a um jogo Botafogo x São Cristóvão em General Severiano. Aceitei o convite e decidimos nos alojar nas torres à esquerda das tribunas, de onde as rádios transmitiam os jogos.

Para mim, aquela posição razoavelmente privilegiada foi excitante. Acostumado a assistir às partidas do Glorioso nas sociais, com meu tio Júlio Lopes Fernandes (1900-1983), ficamos, eu e Sandro, quase em cima da linha de fundo, a poucos metros de altura. Eu estava cansado de saber que Sandro, meu companheiro no Jornal do Brasil, era gozador e folgado. Mas não fazia idéia quanto. No segundo tempo, ele atazanou o lateral-direito Triel, do São Cristóvão, dando-lhe supostas instruções.

Lá pelas tantas, jogo meio duro, Triel foi pegar uma bola bem abaixo de nós e Sandro, na maior cara de pau do mundo, gritou para ele:

- Ô Triel, ô Triel...Você não está sabendo aproveitar o recuo do Paulo César... Esquece a lateral e ataca...O Botafogo está perdido...

Final da história: Triel decidiu avançar, esqueceu o lado direito vazio e foi por lá, nas costas dele, que Paulo César marcou dois gols, se a memória não me falha, depois de assistir a uma infinidade de jogos do Botafogo.

Sandro sempre foi assim, gozador mas muito amigo dos jogadores do Botafogo, seu clube do coração.

Anos antes, chefiando uma delegação do Botafogo que excursionou à Europa (1955), os jogadores pediram a ele que a delegação voltasse ao Brasil de navio e ele permitiu. Exigiu apenas que o time ganhasse, em troca, os dois últimos jogos, na então Tchecoslováquia. E foi o que ocorreu.

Nessa viagem, que marcou o final de carreira excepcional de dois jovens jogadores alvinegros – Dino da Costa e Luiz Vinícius de Menezes – vendidos ao futebol italiano houve um imprevisto.

Quando a delegação estava em Turim, um guia, sem nada na cabeça, decidiu levar os jogadores à Catedral de Superga, onde caiu o avião do Torino em 1949, matando todo mundo.

É óbvio ululante que os jogadores ficaram apavorados com o comércio que ainda tomava conta do local, com camelôs vendendo restos do avião sinistrado (por isso a delegação da Itália, na Copa de 1950, também veio de navio). A bordo do Comte Grande, os alvinegros treinaram com Paulo Amaral, ocupando parte do convés superior do transatlântico.

Garrincha (1933-1983) foi o que mais aproveitou a longa travessia do Atlântico. Estava sempre com uma garrafa de coca-cola nas mãos. Só que, malandro, havia rum misturado ao refrigerante. E Zezé Moreyra ((1907-1998) foi à loucura quando descobriu o golpe. Mas aí, todos já estavam no Rio, à espera do Torneio Rio-São Paulo daquele ano.

(*) Certa vez, numa solenidade em General Severiano, tive a oportunidade de fazer uma pergunta a Zezé Moreyra.

Queria sabe para qual clube ele torcia: Botafogo ou Fluminense?

Ele me respondeu:

‘Os dois’. Confesso que fiquei decepcionado, pois Zezé passou a maior parte de sua vida no Glorioso.

2 comentários:

Gil disse...

Obrigado Mestre Porto pelo seu retorno. Simplesmente maravilhoso conhecer os "causos" e as histórias do nosso BOTAFOGO através dos seus relatos.
Abs e Sds, BOTAFOGUENSES!!!

João Almeida disse...

Roberto,
Depois Vc reune estas histórias e escreve um novo livro, eu garanto comprar pois Vc ajuda a nossa história a ficar viva.
Obrigado