terça-feira, 31 de março de 2009

Botafogo 24 x 0 Mangueira


Minha amiga, irmã, camarada, Camila Augusta da Silva, botafoguense da mais alta estirpe – de um Carlito Rocha, certamente – só tem um único e escasso defeito: é noiva de um cruzmaltino. Mas como ninguém é perfeito, nem eu, que tenho uma filha que torce para aquele clube da Beira da Lagoa, vamos deixar para lá. Pois Camila foi ao Museu do Futebol, no Pacaembu, em São Paulo, e fez questão absoluta de posar ao lado do cartaz que indica a maior goleada da história do futebol brasileiro: Botafogo 24 x 0 Mangueira.
E como ainda é uma menina, me pergunta o que sei sobre esse jogo, disputado exatamente a 30 de maio de 1909, no campo do então Botafogo Football Club. Na preliminar o Botafogo foi mais modesto: venceu apenas por 12 a 1. Mas os 24 a 0 estão no Museu do Futebol. Não sei muito, Camila, mas vamos lá se consigo liquidar com sua curiosidade.

Para começo de conversa, Camila, é preciso esclarecer que a partida foi realizada antes que o escritor Euclides da Cunha (1866-1909), invadisse a casa dos militares Dilermando Cândido de Assis (1889-1952) e Dinorah Cândido de Assis (1890-1921), em Piedade, por causa da traição de sua mulher Ana de Assis (1875-1951).

Na manhã de 15 de agosto de 1909, Euclides saiu atirando, atingindo seu rival, Dilermando, mas ferindo na nuca quem nada tinha a ver com o caso, o zagueiro alvinegro Dinorah. Assim, pois, foi em plena forma física e técnica que Dinorah participou da goleada que entrou para a história do futebol brasileiro, tendo marcado um gol. Não havia tomado o tiro.

Naquela mais do gloriosa tarde, o Botafogo – ainda sem a inacreditável estrela solitária ao peito, o que só ocorreria em 1942 – jogou com Coggin, Pullen e Dinorah; Rolando, Lulú e Pullen; Henrique, Flávio Ramos, Monk, Gilbert e Emanuel Sodré Viveiros de Castro. Os gols, Camila? Pois bem: Gilbert (9), Flávio (7), Monk (2), Lulu (2), Raul (1), Dinorah (1) e Henrique e Emanuel (1 cada). Que tal? Coisas que só acontecem ao Glorioso.

O que ocorre, Camila, é que no dia 15 de agosto Dinorah levou o tal tiro de Euclides – morto de ciúmes. Mas nosso heróico zagueiro, tão esquecido pelo Botafogo de hoje – devia ter um busto em General Severiano – mesmo com a bala encravada no pescoço, entrou em campo para enfrentar o Fluminense, no dia 22 de agosto de 1909.
Com os movimentos prejudicados, não foi o zagueiro categórico de sempre e perdemos por 2 a 1. Mas assim mesmo, Dinorah, amando o nosso imortal Botafogo, seguiu jogando e sagrou-se campeão de 1910, fazendo com que nosso time ganhasse para sempre o apelido de ‘O Glorioso’.

Mas a bala de Euclides foi fazendo efeito e Dinorah ficou paraplégico. Triste, acabrunhado, suicidou-se nas águas do Rio Guaíba, em Porto Alegre, mas foi enterrado no Rio. Ele é um símbolo, Camila. Um símbolo da maior goleada que o futebol brasileiro registra em mais de 100 anos de história. Sou fã de Dinorah, Camila, e Maurício Assumpção também deveria ser. Nosso herói merece as maiores homenagens do Botafogo de Futebol e Regatas, legítimo sucessor do
Botafogo Football Club, certo?

(*) Um último detalhe: o escudo com a estrela solitária, apontado como o mais belo do mundo pelos japoneses, fez sua estréia num simples treino coletivo, em General Severiano, a 19 de janeiro de 1943. O autor do desenho? Basílio Viana Júnior. É mole ou quer mais, Camila?

8 comentários:

Fernando Richter disse...

Olá Roberto.

Não sou carioca nem, muito menos, Botafoguense. Mas confesso que achei seu blog bastante interessante. Tenho amigos/irmãos que moram aí, na cidade maravilhosa, por isso tenho um enorme respeito por todos os cariocas.

Achei seus textos muito bons, mas gostaria de uma sugestão. O que acha de, às vezes, colocar algumas das histórias engraçadas de Sandro Moreyra. O cara é uma figura fora do comum. rsrs

Aproveito para convidá-lo a visitar meu blog.
www.pbcomfernandorichter.blogspot.com

Grande Abraço,
Fernando Richter

Camila Augusta Pereira (da Silva) disse...

Amigo Porto, só você mesmo!!!rs
Adorei a homenagem e a promoção do digníssimo cruzmaltino.
Obrigada pelos esclarecimentos. Fantástica essa história da traíção envolvendo o Dinorah.
Sabia que você teria uma ótima história para contar sobre o tempo em que ganhavamos de 24 X 0.
Já salvei o texto.
Beijos e obrigada pelo carinho
Camila Augusta

Gil disse...

Mestre Porto,

Por isso tu és o GLORIOSO MESTRE PORTO!

Abs e Sds, BOTAFOGUENSES

Anônimo disse...

Sensacional este seu blog. Se fosse dirigente do Botafogo você ia coordenar o site do Fogão, não só pelo seu conhecimento, mas sobretudo pelo amor às cores do nosso amado clube. Grande abraço e saudações botafoguenses. Sergio Di Sabbato

MAM disse...

Porto, Voce é "flórida"!
Só voce para saber desses detalhes do nosso amado Botafogo.
Grande Abraço
e Saudações alvinegras!

Heydrich disse...

Outra lição inesquecível.Salve Roberto Porto!!!!!

Christiano Nunes disse...

Grande tópico!!!

Chico da Kombi, disse...

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Parabéns pelo show de informação, caro Porto.

Gloriosas Saudações Alvinegras.

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